Sou homem de meias palavras, tortuoso e reticente. No meu dizer há medo, imcompletude, nervosismo e demasiada preocupação com seus efeitos colaterais. Também há deformidade, tom inconsistente, vacilante, quase bizarro.
Sim. Sou homem.
Sou homem de frases completas, parágrafos inteiros, harmoniosos, que desfilam e destilam invariavelmente veneno e remédio; depende da dosagem do receptor, da brancura do entendimento ou da leitura replicante das entrelinhas.
Aos que escrevem, por certo embarcaram num caminho amaldiçoado e sem fim, afinal, há infinito desejo de perfeição, da não repetição das palavras, do não copiar, do ineditismo improvável. Não há ponto final, não há paraísos como recompensa, não há aposentadoria.
É uma castração da voz, o cerrar dos lábios e o seguir das palavras, como se seguisse à fluidez de um rio, impossível impedi-lo.
Tudo se mostra tão privado que ainda sinto que escrevo minhas primeiras frases.
Ontem, pela manhã, resolvi ler frases de Fernando Pessoa, que se vivo estivesse, completaria 123 anos...
É aí que está o amor!
Em suas palavras não há truques. Não há estratégia. Tudo é simples como se golpes fossem desferidos na alma, paulatinamente, atingindo dos mais sábios aos incautos.
Desgraçado que sou quando tento expressar sentimentos, longe dos escritos sou um quase-objeto, frio e calculista permaneço, não por vontade própria, mas por destino, como se de repente deixassem de existir alma, paixão, serenidade e emoção.
Ainda ontem, pós-dia dos namorados li Pondé, que citou Kierkegaard:
“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor... Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber."
E conclui: “Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância”.
Eu sei amar. Todos nós sabemos amar. Quer outra pessoa, quer o dinheiro, quer as duas coisas... Contudo, o que me limita são as palavras. Quando escritas, fluem, quando ditas, se perdem...
Seriam Fernando Pessoa e Kierkegaard bons oradores? Prefiro acreditar que não. Não cabe em mim, imaginar a voz de tão brilhantes homens de parágrafos completos...
Tampouco gostaria de ouvir a voz do mouco Beethoven: possivelmente alta, desritmada, turva e irritadiça, revoltosa com suas limitações físicas e da idade. Fiquemos com suas sinfonias, espelho do absurdo e do angelical que há em nossas almas, do gritante e do silencioso... Da proximidade de Deus aos homens.
Maldito continuo... Já conformado. Amo como nunca, sinto, choro, entro em desespero de modo tão sutil que sequer consigo perceber. Poético, ainda com arroubos vulcânicos, respiro o ar da manhã concluindo o que começara ontem a noite, afinal, aos que escrevem, concluir, é quase tão impossível quanto não escrever.